O Regresso dos Deuses – Rebelião (opinião)


Começando pelo aspecto formal, torna-se claro que ocorreu uma clara melhoria em relação às Crónicas de Fiaglar. A linguagem tornou-se mais fluída, abandonando um certo “lirismo” excessivo, por vezes demasiado cansativo na narração e descrição. Nota-se uma revisão cuidada.

Voltam a não restar dúvidas – não se trata de fantasia nem de realismo mágico, antes de  fantastique  – o elemento “sobrenatural” não “encaixa” na normalidade e se existe, está distante de ter uma explicação que se restrinja à dogmática simplicidade de “naquele mundo ser assim e pronto”.

Numa altura em que a maioria dos romances de fantástico incorporam um esqueleto constituido pelo modelo nuclear do enamoramento (mais ou menos doentio e disfuncional) das personagens principais – geralmente a tontinha virginal perdida de amores pelo Adónis de serviço, misturada num enredo onde surge a repisada dicotomia Bem vs Mal, Pedro Ventura tem a audácia de abdicar de ambos os ingredientes. A protagonista volta a ser uma mulher: a die-hard Calédra (mistura explosiva entre Ripley e Mai Bhago), personagem mais interessante e elaborada dos Goor. Pragmática, complexa e insubmissa, Calédra Denaris surge num patamar semelhante às personagens de Lin Carter ou Anne McCaffrey e coloca-se assim nos antípodas das fotocópias das Bellas no mercado, felizmente! Daí não entender perfeitamente a sinopse do Livro que me parece mais preocupada com um certo “mercantilismo” do que com a história em si. Pouco importa, por exemplo, que a protagonista seja “bela”(como odeio o rótulo!) e não estamos propriamente numa cruzada pela salvação de um mundo, antes perante uma “opção” muito menos linear. Uma sinopse de tentar vender “lebre por gato” é certamente questionável, no mínimo!

A primeira parte do livro ainda vive numa espécie de “dependência” dos Goor. Exemplo disso é o surgimento de uma personagem let me tell you what hapenned que me parece forçada e que geralmente dispenso. A “muleta” é em parte explicável pelo facto de não ser possível encontrar os livros anteriores, apesar de isso não ser de todo necessário. É, porém, curioso que a protagonista chegue a ser jocosa em relação a este facto, o que nos leva a pensar que, pelo menos, não se tratou de um recurso inconsciente. Nesta primeira parte surge-nos também uma indirecta parábola à nossa sociedade actual, em referência mais ou menos evidentes. Sempre interessante é o trajecto da protagonista, o aprofundar da sua dimensão humana e a consequente “via dolorosa” ou uplift que a afasta do modelo de heroína ou anti-heroína na definição mais “clássica” Os leitores mais atentos poderão até encontrar paralelismos entre esse trajecto e os relatos de uma importante figura da religiosidade ocidental. É aqui que a uma alegoria idêntica a algo já consumado por C. S. Lewis (sem o elemento feminino, no entanto) se une ao que o próprio autor refere como uma influência das ideias expressas em Chariots of the Gods – característica que diferencia este livro de muitos outros!

Na segunda metade do livro, o autor liberta-se mais do modelo anterior, perde a “vergonha” e revela a “verdadeira face” do seu relato, chegando a introduzir “novidades” na narrativa – alguns “sonhos” são um bom exemplo. Aqui surge nova audácia! As divindades são escalpelizadas e surge uma nova alegoria que nos poderá fazer reflectir no nosso próprio mundo. Novas personagens vão surgindo e algumas são também interessantes – chegando até a ser abordada (timidamente) a sexualidade de uma delas! Não se espere o habital “rebanho” de “bons e justos” em crusade mode! Nada disso! O próprio final também é diferente. Aliás, esse final invulgar indica-nos uma “ponte” para algo que poderá ser ainda mais singular.

Decididamente, a colecção Via Láctea ganha originalidade e novo fôlego – o que espero seja só o começo! Recomendado a todos os que gostam do género épico/fantástico e também aos que não gostarem.

Nota: este breve comentário foi obviamente restrito, devido ao facto de o livro ser colocado hoje à venda em Portugal e não querer carregá-lo de spoilers.

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Esta entrada foi publicada em 2011, Épico, Escritores Portugueses, Literatura, mitos, Novidades, Pedro M R Ventura, Pedro Ventura, Regresso dos Deuses - Rebelião com as etiquetas , , , , , , . ligação permanente.

8 respostas a O Regresso dos Deuses – Rebelião (opinião)

  1. Obviamente só depois de ler a obra é que poderei dar a minha opinião, mas desde já a ideia de uma protagonista feminina forte que seja a “mistura explosiva entre Ripley e Mai Bhago” suscita-me o interesse (se consigo aturar casais, a dupla “macho alpha-donzela em apuros” irrita-me extremamente).

  2. Eu sei que me vão chamar picuinhas, que se com a implicância da capa faz uma ninguém quer que eu me saia com uma segunda, mas meus amigos, não me consigo calar porque me apetece esbofetear alguém!
    Então a protagonista chama-se “Denaris”?! Aposto que o Pedro não leu o George Martin… (azar!) 😉

    Um abraço,
    Roger

  3. Claro Rogério! Daenerys é igual a Denaris! Calédra Denaris é uma cópia de Daenerys Targaryen! Só um cego não vê?!?! Não queres colocar mais defeitos?!?!?! Aliás, aposto que o papel de ambos o livros também tem celulose! A mim é que me começa a apetecer esbofetear alguém! Com conhecidos como tu, vale mais ser amigo dos “inimigos”! BF!!!

    Nota: porque não vais fazer este tipo de comentários a um site de uma amigo teu que, esse sim, gostou do GRM?!?!

  4. E eu lá estou a dizer que o Pedro copiou alguma coisa?! Acho é que foi um azar desgraçado o nome sair tão parecido!
    É que existem uma coisa chamada memes, que por vezes interferem na leitura ao estarmos a ler uma coisa e de repente isso fazer-nos pensar noutra!

    E, parafraseando o João Pinto, defeitos só depois de ler o livro. Isto não passou de um comentário de carapau de corrida! Ou isso já não se pode?! 😛

    Nota: Sei lá de quem estás a falar?!

  5. E, por favor, não me venhas falar mais em conhecidos, amigos, inimigos, amigos dos inimigos, e o diabo a sete! Estou-te a falar de um pormenor objectivo da obra, e respondes-me com a geopolítica do fantástico nacional?! Tu começas a merecer ser esbofeteada, mas é com uma truta! 😉

    Bjs,
    Roger

  6. Penso que a crítica está um pouco exagerada:

    “Numa altura em que a maioria dos romances de fantástico incorporam um esqueleto constituido pelo modelo nuclear do enamoramento (mais ou menos doentio e disfuncional) das personagens principais – geralmente a tontinha virginal perdida de amores pelo Adónis de serviço, misturada num enredo onde surge a repisada dicotomia Bem vs Mal.”

    espero um livro bom – mas acho que esta comparação não faz jus à obra. Comparas uma personagem forte (e ainda bem) com romances de treta. Com estes standards até o que eu escrevo parece bom 😉 Espero um bom livro e prefiro comparar a personagem feminina a outras grandes personagens, do que a mulheres tontas. Acho que é mais justo.

  7. Sinceramente, não me parece exagero! O tal modelo abunda! O facto de não me querer debruçar em detalhes ou pontos de contacto deve-se ao facto de não ser minha intenção gerar spoilers, apenas traçar limites. Em todo o caso, deixo pistas em determinadas referências que faço. Além do mais, costumo evitar comparações entre personagens “fortes” por considerar que isso pode contribuir para uma imediata tipificação de um tipo de personagem que (a meu ver) se individualiza/caracteriza pelas suas próprias particularidades. Analisar Portia à luz de Ripley ou vice-versa será sempre complicado e até errado, a meu ver! Procurando comparações, prefiro salientar em traços muito gerais o contraste com aquelas personagens que lhes servem de némesis em termos intelectuais/comportamentais e depois desenvolver a análise, focando apenas essa personagem em concreto.

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